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A televisão brasileira virou ganha-pão para irrelevantes personagens

Há sentenças que ouvimos uma única vez, e jamais as esquecemos, não importa há quanto tempo, nem quem as tenha dito - sejam quando provocam impressão positiva, sejam quando provocam impressão negativa. Numa assentada lembro-me de três: Uma da jornalista Fátima Bernardes, da TV Globo, quando cedia uma entrevista ao também jornalista Alberto Dines, da TV Cultura, na ocasião da exibição de uma edição do programa Observatório da Imprensa. 
Dines perguntava à Fátima o que ela pensava sobre os jornalistas e os telejornais pelo fato de sempre se reportarem às mesmas notícias, (como num coro incessante e unívoco). Em suma, a opinião dela sobre esse fenômeno que acompanha a imprensa nacional, o qual se realiza quando um jornalista dá um “furo” de reportagem, todos os demais seguirem na mesma direção? A entrevistada respondeu que considerava muito normal, porque não seria admissível que enquanto a maioria se dirigia para um lado, outro corresse em direção oposta.

A outra assertiva foi do filósofo Renato Janine Ribeiro, que ao ser perguntado sobre a importância das novelas, afirmou que se poderia extrair muitas lições das mesmas, como o fato de as novelas proporcionarem um repertório comum, útil e acessível a todas as pessoas, o que possibilita àqueles que não se conhecem compor assuntos e conversarem sobre o desenrolar de uma mesma trama, nos mais diversos lugares e, dessa forma, criar algum vínculo. Ou seja: um papel socializador.

Já em outro momento, Adriane Galisteu, quando dava uma entrevista, não me recordo para qual programa de TV, afirmava que se pudesse faria um programa diferente daquele que na época ela apresentava, mas que era consenso na emissora que a audiência seria baixa. Diante dessa realidade, Galisteu informava para o entrevistador que o que estava ao seu alcance no momento era tentar combinar a sua aspiração como apresentadora com a necessidade comercial da emissora.

Bem, é curioso como as emissoras, sendo uma concessão pública, inclusive com casos noticiados de sonegação fiscal, tenham carta branca para achincalhar e alienar essa mesma sociedade que lhes prestigia. Mas, penso que no caso das duas apresentadoras, elas também são reféns de um sistema maior, empobrecido culturalmente. Não acredito, todavia, que tais propostas subterrâneas de informação e entretenimento sejam somente uma tentativa real de deseducar, desinformar e emburricar, os telespectadores. Não. Não se trata de uma teoria da conspiração por parte de todo o sistema. Certo?

Por outro lado, se não se trata de uma trama, tais personagens, mais cedo ou mais tarde, seriam traídos pela sua consciência moral, inalienável e culta, e alguns lampejos de inteligência verificaríamos no jornalismo contemporâneo brasileiro. Haveria, com certeza, uma repulsa a tudo isso, e uma desesperadora vontade de mudar. Ainda que com certo risco de represália.

Se não é um conluio, porque não verificamos mudanças reais no sistema de comunicação das emissoras? Ou no comportamento de seus Staffs? São perguntas que merecem respostas. No que diz respeito aos canais abertos, é verdade que vez ou outra parte do jornalismo dá prova de insurreição e inovação. São os casos da band, através do programa Canal Livre, ou por parte da TV Cultura, através de programas como Observatório da Imprensa ou Roda Viva. Evidente que têm outros, mas são muitos poucos. O fato é que o problema é orgânico, e as contas vencem.

Percebe-se, portanto, que além de um relativo interesse das emissoras em nivelar a sua grade por baixo, ainda há a deterioração cultural coletiva de seu establishment, além da perda da criatividade. É sabido, entretanto, que muitos editoriais de jornais e revistas, hoje, guardam muita autonomia para expressarem suas opiniões. Por outro lado, constatamos que o abismo que separa esses fenômenos de uma tentativa real de renovação é muito grande.

É como se a academia brasileira estivesse imobilizada e cooptada, ou fosse representada por um número muito reduzido de expoentes, ou estivesse fora do poder midiático, ou ambas as hipóteses. O fato é que qualquer homem médio, que já passou pela universidade, sabe muito bem que estamos muito mal representados na academia. Seja pela incapacidade de inovar em ciências humanas – produzindo mudança de repertório – para provocar discursões novas e pertinentes sobre o futuro do Brasil, seja pela leniência e submissão ao projeto gramsciano implantado no país para a sua tomada e derrocada, cujas ramificações estão em toda parte, o qual que eu chamaria de chavismo tupiniquim. Diga-se de passagem que as universidades federais que ainda escolhem seus reitores por eleições indiretas dão um grande exemplo de subserviência ao governo federal – mas, neste ínterim, não sei qual escolha seria pior – deixar a eleição a cargo dos estudantes (muitos noiadaços) ou entrega-la ao Big Brother.

A miséria é total e insofismável: alcança os programas de auditório, os telejornais e. em especial, as telenovelas. Gostaria de dar um desconto para o programa do Ratinho, ou outros mais que não prometem nada mais do que aquilo que se mostra. Estes programas de humor, na sua maioria, têm o único propósito de fazer rir. Algumas brincadeiras são até bem pueris. O mesmo não se pode admitir do Pânico na TV, da Band: programa de conteúdo apelativo, que para se ter audiência, se valha apenas de bundas, algumas até de origem incerta, bem como de piadas com vocabulário de baixo calão. Esse tipo de humor deve tirar o sono do 
Chico. Não é questão de falso moralismo, o que se pergunta é: por que a TV aberta só têm isto? Por que somente na TV fechada se encontram programas com mais qualidades? Não vão dizer que pagamos mais caro pela fechada. Pagamos caro por ambas. Essas concessões saem caras demais para o povo brasileiro.

Mais nada pior do que aqueles programas que, transvestidos de uma áurea de inteligência e seriedade, querem na verdade avacalhar com o mínimo da reserva cultural e moral desse país – em última análise - a geração que representa o futuro da nação: nossas crianças, vez que são transmitidos durante o dia. A título de exemplo podemos citar o programa Márcia, que mostra rascunhos de seres humanos tentando virar gente, mas atuando como marionetes em um circo de horrores. Total impostura. Mais ela não está sozinha nessa embrulhada de faz-de-contas, esse tipo de entretenimento já se transformou em epidemia nacional. Tais “divertimentos” são conhecidos como “tevê miséria”. Até o jornalismo que passa em horário vespertino tem sido formatado dentro dessa mesma plataforma, dentro dessa perspectiva. Sucesso de renda e de público.

Bem, mais há ainda as novelas apreciadas por Janine. As de hoje não passam de escolas - de sacanagem, de falcatruas, de desilusões, de destruição da família, de perversão de mentes infantis – sem falar da pobreza de enredo, de vocabulário, de interpretação, dentre outras mazelas. Entretanto, é verdade que até a década de 80 existiram 
novelas sucesso de crítica e de público. E se é para se fazer justiça, muitas minisséries também tiveram grande mérito.

Algum desavisado poderia me questionar, fazendo-me lembrar que eu estou sendo injusto, e que os filmes poderiam receber as mesmas críticas. É verdade, se tratando de brasileiros. Porque no cinema internacional ainda é possível assistir a grandes obras e interpretações. O que no Brasil só é verificável no teatro. E olhe lá. Sem dúvidas a televisão virou ganha-pão para irrelevantes personagens. E o pior é que têm quem os assistem. Oportunistas tentando viver aos auspícios da ingenuidade alheia.


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