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O que somos nós? (I)

Há alguns anos, o humorista brasileiro Chico Anysio fez um comercial de televisão, não me lembro para qual produto, no qual ele iniciava o anúncio bem velhinho e terminava um bebezinho de colo. Moral da história do anuncio: o ser humano deveria nascer velho e ir tornando-se criança com o passar dos anos. Porque dessa forma haveria uma evolução do corpo e do espírito. No sentido da inocência, não do amadurecimento.

H. Weinert, em L’Ascension Intellectuelle de I’Humanité, afirmou, quanto à origem do homem, que sua origem ocorreu na obscuridade bestial primitiva e, que o progresso do corpo e da alma ocorreu concomitantemente. Que o homem não teve uma criação brusca, pronta. Nitidamente estamos diante de um confronto de ideias; de um dilema: a teoria de um passado límpido e um futuro maculado e, a teoria de Weinert de um passado bestial e um futuro glorioso, evolutivo. É evidente que a moral do anuncio falava de um futuro infantil e Weinert estava falando de um passado quanto à própria existência humana - de seus primeiros passos como humano, e não de um ser em processo de humanização. Ou seja, Weinert falava de nosso ancestral; de um prossimóide ou prossímio.


Afinal de contas, perguntas como: de onde viemos? Para aonde vamos? Como viemos? Como volteremos? Gritam e ecoam por toda a humanidade e por muito tempo. Mesmo no mais íntimo dos céticos. É por isso que há céticos famosos que escreveram muitos livros sobre a morte, por exemplo. Os livros sobre a origem ou sobre as origens do homem não conseguiram responder; os livros religiosos também malograram na tentativa; os sistemas filosóficos e religiosos orientais também ficaram pelo caminho. A biologia e a antropologia se esforçam mais não convencem, e os confrontos internos da academia são muitos. Os arqueólogos e paleontólogos se criticam mutuamente. Nunca reconhecem ou levam muito tempo para reconhecerem que o achado do outro realmente se tratava de um pedaço de crânio ou uma mandíbula de um de nossos ancestrais. E é evidente que não vai ser eu quem vai responder a essas perguntas, mas podemos procurar entender esses assuntos melhor. É o que falta hoje: a organização dessas informações e a disponibilidade delas de forma fácil, porém, sem superficialidade.


Mais toda a academia é unanime em dizer que os “humanos” e os “macacos” têm o mesmo ancestral comum. E entram em contradição quando tentam dizer que nós humanos temos ancestral diferente. Veja a contradição: segundo a academia os macacos têm o seu ancestral na figura dos macacos antropoides e, que os humanos têm o seu ancestral na figura dos homíneos. Ora, mais tanto os macacos antropoides como os homíneos têm seus ancestrais na figura dos primatas. Sendo assim, as partes fazem parte do todo e dela não podem se desvencilharem. Isso iria contra a lógica. Portanto, o que dizem é que nós humanos somos descendentes dos macacos. Aristóteles nos ensina o seguinte: 


“todas as coisas se definem pelas suas funções; e desde o momento em que elas percam os seus característicos, já não poderá dizer que sejam as mesmas; apenas ficam compreendidas sob a mesma denominação”.

(Aristóteles, A Política)



Aristóteles nos dá o exemplo da mão, dizendo que uma mão fora do corpo deixa de ser mão, salvo no nome. Deixamos nós de sermos macacos porque perdemos as características de macaco? O exemplo da mão de Aristóteles serviria para o caso concreto dos humanos? Afinal, somos feito à imagem de Deus ou do Macaco? Lin Yutang diz que do macaco:



“...de modo que, em lugar de nos atermos ao critério bíblico de que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, vimos a compreender que somos feitos à imagem do macaco e que estamos tão distanciados do Deus perfeito como, digamos, estão as formigas distanciadas de nós...”.

(Lin Yutang, A Importância de Viver: 46)


Aristóteles, no seu livro Tópicos afirma algo parecido:



“...é mais desejável o atributo que pertence ao melhor e mais honroso sujeito; por exemplo, o que pertence a um deus é mais desejável do que o que pertence a um homem, e o que pertence a alma, mais desejável do que o que pertence ao corpo. Do mesmo modo, a propriedade de uma coisa melhor e mais desejável do que a propriedade de uma coisa pior, por exemplo: a propriedade de um deus do que a propriedade do homem; porque, assim como no tocante ao que é comum a ambos não diferem absolutamente entre si, no que respeita as suas propriedades um sobrepuja o outro”.

Aristóteles, Tópicos: 81)


Aristóteles também não acreditava que Deus pudesse habitar entre nós ou colocar parte de sua essência em nós. Aristóteles afirmou no seu livro Tópicos que se fosse possível Deus estar entre nós ele deixaria de ser Deus, visto que mudaria sua potência. Mais a concepção de Deus para Aristóteles está relacionada ao Universo, daí apostar na imobilidade de Deus. Mas o homem já conhece o Universo faz algumas décadas. Se Deus é o Universo e o Universo não vem até nós, nós já podemos dizer que já fomos até ele e colocamos os pés nele. Mas hoje, para a maioria dos humanos a concepção de Deus é outra. Bem, realmente há em nós uma tendência em desejar as propriedades de algo ou alguém que é reconhecidamente melhor. Estaríamos nós construindo deus em nós como afirma Aristóteles na célebre frase abaixo declinada?  



“O homem fez os deuses à sua imagem; também lhes deu seus costumes”.

(Aristóteles, A Política)


Na próxima parte continuaremos. Discutiremos melhor os termos primatas, possimóide, prossímio, e homíneos. Entrarei também na Era Terciária e veremos o que poderemos descobrir. Por enquanto ficaremos por aqui.


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