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Convivência e interação num mundo plural

Conviver com o diferente não é fácil. Esse é o primeiro entendimento que todos deveriam ter para se iniciar uma tentativa de se construir um mundo cuja pluralidade e diversidade de opiniões, de credos e de preferências diversas fossem respeitadas. 

O diferente é um desafio porque quando se está diante de pessoas ou grupos que manifestam abertamente correntes de pensamentos e de práticas que, em certa medida, negam posicionamentos duradouramente estabelecidos por outros grupos, cria-se uma aversão natural entre aqueles que se observam e, que se interagem.

A obstinação em defesa de um ponto de vista pode levar à alienação cultural. A história recente do século XX é capaz de mostrar com clareza as consequências de uma visão obtusa da vida. O nacionalismo exacerbado no período entreguerras, que serviu de combustível para a Segunda Guerra Mundial, o fanatismo religioso contemporâneo. Na segunda metade do século XX foi feito uma pesquisa entre os brancos da África do Sul sobre o fim ou não do apartheid, constatou-se que dos que foram contra o fim do apartheid, a maioria eram trabalhadores da indústria, que estavam com medo da concorrência, e por conseguinte, de perder seus empregos construções ideológicas despropositais – são exemplos que geraram efeitos sociais catastróficos.

Contudo, o mais importante é o que está por vir. Somos grupos que, acima de qualquer ideologia, interagimos. É nesse ponto que reside a questão chave da convivência humana. Não somos nem devemos ser obrigados a acostumar-se comunitariamente, trocando segredos, participando do mesmo espaço de lazer, comendo a mesma comida, colocando nossos filhos na mesma escola, vestindo os mesmos tipos de roupas, frequentando as mesmas festinhas, gostando das mesmas coisas, frequentando o mesmo espaço sacro, até mesmo conversar demoradamente com pessoas que consideramos muito diferentes. Não somos obrigados a nada disso.

Mas a interação é inevitável num mundo cada vez mais globalizado como o nosso. Não podemos fugir disso, talvez aí resida o grande valor da literatura realista. Maior do que da utópica. Se quisermos ser utópicos, sejamos primeiros realistas. A realidade está posta, ou aprendamos a viver nela, ou o futuro não nos pertencerá, nem a nossa geração.

Paradoxalmente, a realidade aponta para uma globalização expansiva em alguns setores da vida e limitada em outros setores. Talvez contemplaremos num futuro próximo, a setorização da convivência humana, na medida em que outros grupos, até aqui minoritários, avancem na conquista de seus ideários. Ao invés de condomínios de casas ou apartamentos teremos “condomínios de convivência social”. Mas isso não significa que ao nos encontrarmos nas “áreas comuns” da convivência humana teremos que nos digladiar. 

Qual o cristão que seria capaz de ceifar a vida de um não cristão, pelo “simples” fato de um não cristão ter falado que Cristo não existiu ou de ter produzido um filme caricaturando a figura dEle? Nem mesmo durante a Idade Média, os motivos das cruzadas foram estes. Contudo, muitos não cristãos nos dias de hoje são capazes de matar quando a “imagem” de seu Deus serve de escárnio e zombaria.

Por que isso acontece? Porquanto não aprenderam a se interagir despojado de armas, de violência. Muitos acham que seu Deus vai ficar maior ou menor diante do conceito dos humanos se não houver uma defesa em público dEste ou uma lavagem da honra do divino. Seria uma espécie de novo-deísmo. Ou seja, ao mesmo tempo em que determinados grupos não negam a existência de Deus, apesar de não negarem sua interferência no cosmo, querem agir em nome dEle e por Ele.

Mas esse é só um setor da interação humana que está em crise. Têm outros. Observem! É possível se discordar de vários pontos de vista sem ser violento ou agressivo. São necessárias mais interações pacíficas. Tanto na macro relação, quanto na micro convivência. 

Dessa forma é possível verificar que conviver com o diferente pode ser muito saudável, como nos ensina a natureza. É preciso, porém, um exercício antropológico de olhar o mundo através do olhar do outro, tentar compreender a partir da compreensão do outro; sabendo, de antemão, de que não é tarefa fácil. Mas que pode ser muito benéfico para todos. O exercício é diário. E o mais importante é que acima de tudo temos que aprender a interagir, e que interagir não é o mesmo que conviver comunitariamente.

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