Pular para o conteúdo principal

Análise do discurso do Papa aos jovens argentinos

O Papa Francisco, ao falar para seus irmãos argentinos, demonstrou ter um espírito com duas qualidades que são importantíssimas para qualquer indivíduo, mas principalmente para o jovem: inconformidade e atitude. Penso que essas duas qualidades muito representam a síntese desse discurso aos jovens argentinos.
Enquanto pensava sobre essa síntese lembrei-me de um outro discurso: o do Apóstolo São Paulo aos Romanos, quando ele disse: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos...”. Tais ensinamentos de São Paulo parece-me nortearam a coluna desta homilia. Evidentemente que as palavras do Papa foram selecionadas considerando também as últimas manifestações ocorridas no Brasil, o que demonstra uma sintonia com as demandas hodiernas, mas acima de tudo uma capacidade de observação e de retórica, na medida em que soube falar aos corações e às mentes de todos que o ouviram.

Porém, não é só isso. O Papa Francisco conhece a verdadeira vocação da igreja, que tem em seu significado mais forte e verdadeiro a ideia de que a Eclésia é cada um de nós, com nosso corpo e alma. Tal afirmação faz todo sentido quando se observa as palavras de São Paulo que antecederam às citadas acima: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus...”.

Após exortar a todos que o ouvia a trilharem o caminho do inconformismo crítico, margeou seu discurso sob dois pontos de preocupação, que devem ser objetos da atenção dos jovens a partir de agora: a exclusão dos jovens e a exclusão dos idosos da cena social e política da vida nacional. 

Os idosos foram colocados como a reserva cultural, enquanto os jovens a reserva política e social. A primeira ideia representa um passado, materializado nos idosos, que precisa perseverar em continuar ensinando e moldando, com o que tem de melhor, a juventude. Eric Hobsbawm chamaria essa ideia de “o passado como modelo”. A segunda ideia representa um presente, materializado nos jovens, que precisa não se contaminar com as efemeridades e incongruências da vida, a fim de que os jovens possam ser portadores de boas notícias e agentes de mudanças reais, que tragam o bem para toda a humanidade.

Por fim, “apontou” para a Cruz e a colocou como o melhor sinal que temos para olhar, enquanto caminhamos, porquanto se nossas atitudes estiverem subjacentes nela teremos mais chances de não errar o caminho e fazermos de fato justiça, não só com os homens, mas também com o meio ambiente e com todo planeta.

Uma dúvida que me acompanhava deixou-me ao final da leitura desse discurso: porque o Papa Francisco não escolheu o continente Africano, ao invés da América Latina, haja vista que ele tem sido um Pontífice preocupado com a pobreza e as injustiças que agoniam a humanidade?

Como jesuíta, o Pontífice sabe falar à intelectualidade, com a escolha do nome Francisco, demonstrou que quer pastorear os mais necessitados. Essa situação emblemática, não é, de modo algum, uma contradição. Representa que a voz e as atitudes que emanam, por vezes, do poder têm o dever moral e ético de contribuir com a justiça social. Porém, deixou claro a toda juventude que ela é a força, que ela é que precisa atuar e de forma diferente, porque os exemplos que temos nos quadros políticos, bem como em parte da sociedade organizada, não nos servem de modelo moral, nem ético, nem social, nem político.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Regime das Adesões e Traições (I)

O jogo sujo de alguns líderes políticos de submeterem o apoio de seus partidos a um futuro governo Temer, ao controle dessa ou daquela pasta, pode levar esse futuro “governo provisório” a um final fatídico. No campo das expectativas o seu fracasso pode gerar decepções maiores às percebidas no último governo Dilma; isso porque embora as promessas de campanha de Dilma fossem falsas e irrealistas, Temer é visto como alguém mais centrado, equilibrado e ciente do que pode e deve ser feito para encaminhar o Brasil até 2018 com um controle maior sobre as contas públicas, os gastos, em respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal, uma capacidade maior de atrair investimentos estrangeiros, uma melhor relação interpessoal com o legislativo e o judiciário, dentre outros benefícios. Assim, dele se espera muito, ainda que não admitamos em público.

O Brasil lhe agradece, Felipão

O fato da Copa do Mundo de Futebol está sendo realizada no Brasil, provocou inúmeros questionamentos sobre sua relevância em nosso território. Os movimentos populares, ocorridos em várias partes do país, pelo “não vai ter copa” tentavam ecoar na mente e nos corações, proposições sobre a importância de se aplicar em outras demandas os bilhões de reais gastos com a Copa da FIFA 2014, além de chamar à atenção para o que foi deixado de ganhar pela isenção de tributação à FIFA.

Escalpelamento: uma tragédia aununciada

A região norte, sobretudo a área ribeirinha, guarda contornos sociais, políticos e culturais que chocam as pessoas de bem, e limitam a capacidade de agir. O mesmo se poderia dizer de outras áreas da federação, sim, talvez, como o nordeste por exemplo. No mês passado, em 28 de agosto, se comemorou o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento.  
Não houve festas, pelo menos para as vítimas desse infortúnio. Desde 2007 que tramita na Câmara dos Deputados federal algum tipo de projeto, indicação ou ementa versando sobre o assunto, porém, timidamente, somente dois foram transformados em Lei: PL 1531/2007 e PL 1883/2007. O primeiro, dois anos depois, tornou obrigatório o uso de proteção no motor e eixo das embarcações em todo território nacional, o segundo, três anos depois, instituiu o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento.
Parece-me, pelo visto, que os deputados e senadores não perceberam a importância e a gravidade da causa. Debruçam sobre seus próprios interesse…