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A maldição do teleférico

É curioso notar como alguns assuntos de somenos importância, como por exemplo: fulana está namorando com sicrano ganham dimensões nacionais, e outros, apesar da relevância, não. Tomemos agora o exemplo da seguinte manchete: “Moradores da Rocinha rejeitam teleférico e cobram que verba seja usada no saneamento básico”.[1] Essa reportagem não teve da mídia o tratamento adequado. 
Deixei o Rio de Janeiro faz alguns anos. Quando retornei a passeio pude me defrontar com os teleféricos. O primeiro que observei foi o do Morro do Alemão – R$ 210,00 mi[2] foi o seu custo total, e seu custo mensal, a título de subsídio, está sendo de R$ 2 milhões. Gosto não se discute, há quem os considere bonitos e úteis. Confesso que a minha primeira impressão não foi muito agradável. Mas o que quero argumentar é sobre sua relevância atual, diante de tantas outras mais pertinentes.

A população da Rocinha já fez sua escolha: O teleférico foi rejeitado. Pelo menos por enquanto. O povo da Rocinha tem outros pleitos que esperam por soluções há mais tempo. Nenhum dos governantes que passaram pelo Palácio Guanabara, pelo menos nos últimos 30 anos, tiveram a sensibilidade e a coragem para fazer obras de infraestruturas e de saneamento básico nas comunidades cariocas. Preferiram realizar arquiteturas grandiosas ou faraônicas, como chamarizes para conquistar votos.

Continuemos com a Rocinha como modelo, mas poderia ser qualquer outra comunidade carioca. Após a ocupação da Rocinha pela UPP – Unidade Policial Pacificadora – a imundice com a qual convivia a população daquela “favela” saltou aos olhos de todos os brasileiros. Nenhuma novidade até aqui, porém, não se pôde mais tentar encobrir ou disfarçar a omissão e o descaso de décadas dos governantes “cariocas”.

Sérgio Cabral e a Presidenta Dilma perderam uma grande oportunidade de fazer diferente. Os milhões de Reais gastos no símbolo carioca do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) – o teleférico - deveriam ter sido “canalizados” nas “favelas”, em forma de infraestrutura básica, saneamento, moradias, postos de saúde, creches, escolas e professores. Os políticos continuam subestimando a consciência do povo, acreditando que conseguirão ludibria-los por muito mais tempo, com o “pão” (bolsa família) e o “circo” (teleféricos, estádios).

Esse descontentamento da comunidade da Rocinha também é sentido por outras comunidades e, por outras parcelas da sociedade. As manifestações de junho representam bem essa ideia. O fato é que esse desgosto é emblemático e pode reverberar-se nas próximas eleições presidenciais. Aqueles que tinham a certeza de que a supremacia PMDB-PT fosse persistir por mais tempo, devem estar se perguntando agora: o que será do amanhã? Responda quem puder. Mas a “maldição” do teleférico vai continuar assombrando até lá.




[1] (CBN, 2013)
[2] (GOMIDE, 2012)

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